
Já dizia Hipócrates: “o vinho é uma coisa maravilhosamente apropriada ao homem, tanto na saúde como na doença, se bebido com moderação”. Considerado o pai da Medicina, Hipócrates viveu na Grécia (entre 460 a.C e, aproximadamente, 375 a.C), e é uma das muitas vozes da Antiguidade que exaltavam as propriedades terapêuticas do vinho. Já naquela época, a bebida era usada também por egípcios, romanos e outros povos para tratar diversos problemas, como asma e depressão.
Hoje ainda, graças às propriedades naturais da uva, o vinho continua a ser considerado como uma fonte de benefícios para a nossa saúde, desta vez, com suas propriedades terapêuticas comprovadas por incessantes pesquisas. “O vinho tem efeitos antioxidante anti-inflamatório, anti-hipertensivo e ainda melhora os níveis de dislipidemia, como o colesterol alto no sangue”, explica o pesquisador Roberto Soares de Moura, da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e reitor do Centro Universitário Estadual da Zona Oeste, do Rio de Janeiro.
O efeito antioxidante ajuda a neutralizar os radicais livres, moléculas responsáveis pelo processo de envelhecimento e surgimento de doenças como o câncer.
O Incor (Instituto do Coração) de São Paulo, divulgou recentemente uma pesquisa feita com coelhos que receberam alimentos ricos em colesterol ruim e vinho, com a finalidade de saber se o vinho poderia proteger o coração da aterosclerose ( o acúmulo de placas de gordura nas artérias que pode levar ao infarto). Os animais foram divididos em três grupos. O primeiro recebeu só a comida. O segundo, além da comida, contou com uma porção diária de vinho tinto. E o terceiro grupo recebeu a dieta e um vinho tinto fervido, ou seja, sem álcool. Três meses depois, o resultado, animador: os coelhos que receberam somente a dieta sofreram uma intensa formação de placas de gordura e os que tomaram vinho tiveram grande diminuição das placas.
Já os animais que tomaram o suco de uva também tiveram redução, mas numa escala menor. O Incor continuou a pesquisa com humanos. Adultos com colesterol alto tomaram 250 ml de vinho tinto (aproximadamente uma taça), por 15 dias e foram examinados. Depois, parte do mesmo grupo tomou apenas suco de uva. De acordo com o estudo, o vinho tinto e o suco de uva, que não contém álcool, melhoravam muito a reatividade vascular, ou seja a capacidade de a artéria se dilatar, o que é positivo, pois, com as artérias dilatadas, a circulação do sangue é facilitada. Assim, os estudos indicam que o vinho, do mais caro ao mais acessível, reduz os riscos de doenças cardiovasculares.
Os polifenóis, elementos encontradas nas casca e nas sementes das uvas são os responsáveis por tantos benefícios. Um deles, o resveratrol, apontam as pesquisas, têm grande valor terapêutico.
Trata-se de uma substância que a videira produz para proteger as uvas do calor, da umidade e das doenças que atingem a plantação. “Os polifenóis, principalmente os da casca da uva, que é mais macia, vão para o vinho. As cascas se dissolvem no processo de produção e liberam todos os polifenóis para o corpo do vinho”, explica o pesquisador Roberto Soares.Os polifenóis são encontrados em outros alimentos, como o açaí e a maçã. “Mas no vinhos, seus efeitos são mais estudados”.
Moderação – A recomendação de Hipócrates, tão antiga, continua valendo para a atualidade: o vinho deve ser bebido com moderação. “Com dois cálices diários, de preferência às refeições, já é possível alcançar todos os benefícios do vinho”, garante o pesquisador Roberto Moura. Mais do que isso, a situação se inverte e a saúde é prejudicada. “O vinho é uma bebida tóxica. Pelo teor de álcool que tem, pode levar ao alcoolismo ou causar problemas como gastrite e lesões no pâncreas e até mesmo induzir à diabetes”, alerta Moura. E ainda: o vinho não é recomendável para todos. “Gestantes, pessoas com tendência ao alcoolismo e com problemas de diabetes, gastrite ou pancreatite não devem tomar a bebida”, diz Moura. Quem sofre com as cefaléias também deve evitar o vinho.
O suco de uva é outra opção para quem não pode ou não quer tomar o vinho. Porém, a qualidade terapêutica dessa bebida se esbarra no excesso de açúcar. “Como tem muito açúcar, colabora para a obesidade e até para o diabetes”, ressalta Moura. Mas, se tomado com moderação, também contribui para uma saúde melhor, graças aos polifenóis. Uma boa notícia é que Moura trabalha atualmente numa pesquisa para desenvolver um produto à base de casca de uva. “Quem não pode tomar suco de uva ou vinho, poderá tomar uma cápsula que vai fornecer a mesma ação benéfica do vinho”, conta. “Ainda este ano, devemos iniciar os estudos com humanos”.
Quanto ao vinho branco, sua ação terapêutica é discreta, pois, comparado ao tinto, ele contém quantidade menor de resveratrol. É que no processo de fabricação, assim que as uvas são esmagadas, as cascas, onde se encontra o resveratrol, são jogadas fora.
Fonte: RFC edição abril / 2011